Histórico de lutas na Comunidade Juquiá

A comunidade Juquiá cresceu muito em 2009, quando houve uma crise nas indústrias joinvilenses e muitos trabalhadores acabaram perdendo o emprego.

Moradores do Juquiá lutam por condições dignas de moradia.

Foguetes, carne assada, cerveja gelada e muita alegria. Essa é a promessa para o dia 31 de outubro na comunidade Juquiá, chamada pela Secretaria de Habitação de José Loureiro, zona sul de Joinville (SC). Mais que asfalto e saneamento básico, o que os moradores da região pretendem comemorar no último dia do mês de outubro é a vitória de uma batalha que se arrasta há anos, a batalha por uma vida digna.

O caso Juquiá estampa manchetes e é alvo de muita discussão e polêmica. A ocupação irregular, localizada no bairro Ulisses Guimarães, tem mais de quinze anos e só vem aumentando, o que é motivo de preocupação e dor de cabeça para todos os prefeitos que passaram pelo comando da cidade mais populosa só estado. Segundo os moradores, nunca houve reunião entre autoridades e população. Apenas no ano passado começaram a olhar para o povo com outros olhos.

“Não tinha reunião não, só apareciam aqui em época de eleição e depois desapareciam”, afirma um dos moradores mais antigos da comunidade, Sebastião Severo da Silva. Sorriso, como é conhecido pelos vizinhos, lembra que as ruas e casas hoje construídas ali, antes davam lugar a uma fazenda. “Quando eu entrei aqui era um mato. Os que estão aqui chegaram com tudo arrumado. Eu não. Quando entrei aqui não tinha luz, não tinha água, nada. Tinha que pegar água no poço lá embaixo”, conta o dono do bar que hoje é usado também para as reuniões da Associação de Moradores da Comunidade Juquiá.

A briga entre comunidade e autoridades se dá porque a ocupação está localizada em uma área de mangue, preservada pelos órgãos ambientais. Joinville é uma cidade que cresceu sem um ordenamento territorial e diversos bairros foram se estabelecendo em cima de mangues, como o Boa Vista, Fátima e Espinheiros. Esse é um dos argumentos dos moradores e entidades que defendem a comunidade.

Quem vive no Juquiá sonha com dias melhores.

Quem vive no Juquiá sonha com dias melhores.

Sandovan Vivan Eichenberger, morador do Adhemar Garcia e uma das pessoas que auxilia os moradores do Juquiá na luta pelo direito à moradia, lembra que uma das maiores empresas da cidade causou um dano enorme e permanente na região do bairro Boa Vista. A pena foi uma multa que resultou na construção do Parque Caieiras, hoje abandonado.

As manifestações têm se tornado algo recorrente na comunidade, e o motivo foram promessas políticas não cumpridas ao longo dos anos. Moradores reclamam da campanha política do atual prefeito Udo Dohler, que andou pelo bairro e prometeu mudanças. Apesar disso, no começo de julho os moradores receberam ordens de despejo e uma multa por construção irregular.

“Chega de hipocrisia, queremos moradia”

Essa tem sido a gota d’água para uma grande manifestação na rua Dilson Funaro, que dá acesso à comunidade. Pneus queimados, ônibus impedido de retornar ao terminal, cartazes e gritos de “Chega de hipocrisia, queremos moradia”, foi o que se viu na manhã do dia 15 de julho no bairro. Após horas de fumaça preta e a intervenção de policiais militares e bombeiros, a comunidade, autoridades e empresa de ônibus chegaram a um acordo. O veículo que faz o trajeto pela rua José Loureiro foi cedido para levar os moradores ao encontro do prefeito. Essa reunião deu novas esperanças ao povo do Juquiá. Moradores, prefeito e secretários estavam presentes discutindo a melhor solução para as famílias que ocupam os terrenos considerados irregulares.

Ariana Cordeiro Monney foi a porta voz do povo. Moradora da comunidade há mais de quatro anos, ela diz que não está satisfeita com o que está acontecendo e promete não parar a luta, até que se chegue a um consenso.

“Não estou contente com isso não, não me ilude em nada. Vamos fazer uma festinha, juntar um dinheirinho, juntar madeira e construir uma associação de moradores ali em cima, quero ver quem vai derrubar.”

Segundo Ariana, o prefeito afirmou que até final de outubro, asfalto e saneamento estarão concluídos. Ele também teria dito que uma escola e um centro de educação infantil teria sido implantado na comunidade até o final de 2013. A construção do posto de saúde ao lado da Igreja Santa Paulina, ficaria para o próximo ano. A regularização dos terrenos ainda não tem prazo, há projeto de realocação das famílias em conjuntos habitacionais que devem ser construídos próximo ao local onde fica a ocupação.

A comunidade Juquiá cresceu muito em 2009, quando houve uma crise nas indústrias joinvilenses e muitos trabalhadores acabaram perdendo o emprego. “Meu marido foi atingido por essa crise enorme e ficamos sem ter como pagar o aluguel. Então, quando viemos, o pessoal também veio em peso e não tinha pra onde correr. Foi a solução que a gente teve”, conta Ariana.

Juquiá 1

Famílias aguardam entrega de obras

A polícia também é autoridade presente na vida de luta dos moradores. Não há posto policial na comunidade, mas,sempre que há manifestação, carros da Polícia Militar são os primeiros a chegarem ao local. Ariana conta que há cerca de quatro anos, houve manifestação porque máquinas estavam prontas para derrubar casas. Moradores que fizeram corrente humana para tentar impedir a derrubada receberam spray de pimenta nos olhos. Alguns foram atingidos com balas de borracha e as casas foram ao chão. “Eles vem da forma que eles gostam né? Oprimindo as pessoas, usando de força como se a população aqui fosse bandido, coisa que a gente não é. Isso pra mim é humilhação. Eles só aparecem quando estamos protestando, para reprimir a gente.”

Comerciantes já foram penalizados por levar material de construção para a comunidade, com apreensão de veículo e multa. Segundo os moradores, não há mais quem aceite vender e entregar material na comunidade por medo. Moacir Nazário é presidente da Associação de Moradores do Adhemar Garcia e está ajudando na implantação da associação no Juquiá . Ele recrimina esse tipo de autoritarismo, “Isso é criminalizar a moradia”.

O historiador e colaborador da comunidade, Kleber Tobler, ressalta a importância que a força popular tem para que mudanças aconteçam.

“Não houve progresso por força política, houve por pressão política. Veio polícia aqui com arma pra tirar eles das casas, como já aconteceu no governo do ex-prefeito Tebaldi, e o povo resistiu. Isso para mim é heroico. A comunidade só está aqui por causa dessa luta. Benevolência política nunca existiu”.

A festa na comunidade está sendo preparada e os moradores de toda a região estão sendo convidados para comemorar a conquista do povo. Caso o prazo seja descumprido, os moradores da comunidade farão o que sempre fizeram e continuarão fazendo para melhorar a vida das famílias. “Nós pedimos um prazo né? E esse prazo vence dia 31 de outubro. Esse dia não sai da minha cabeça. E se as mudanças não acontecerem, a gente não vai marcar reunião não, vamos nos manifestar do jeito que a gente sabe. Vai ser com luta”, finaliza Ariana.

Entenda o caso Juquiá

A linha do tempo mostra a história do loteamento e as lutas que os moradores enfrentaram, e ainda enfrentam, para conseguir a legalização das residências.

Saiba mais:

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Busca de agilidade para resolver problemas do loteamento Juquiá

Nova invasão deverá ser desocupada

A Secretaria de Habitação afirma estar trabalhando na urbanização da comunidade com arruamento, instalação de água e energia elétrica, legalização da área e inauguração de praça com academia ao ar livre, quadra poliesportiva e espaços de lazer. Em 2012, houve um repasse de mais de R$ 3 milhões para implantação de rede de esgoto e drenagem.

A realocação ao longo desses anos nunca foi cogitada pela secretaria, pois a opção foi a urbanização, mas uma nova invasão ocorrida recentemente não será legalizada. Está sendo realizado o cadastramento das famílias para que, junto ao Ministério Público, se ache a melhor solução. Segundo a secretaria, a nova invasão foi realizada em área pública de preservação ambiental e será desocupada em breve. O processo de regularização dos demais terrenos já está em andamento.

Benhur Antônio, assessor de comunicação da Secretaria de Habitação aponta o planejamento habitacional como melhor solução para os problemas de moradia. “Não se pode permitir invasões e quem quer ter casa própria deve fazer sua inscrição na Secretaria de Habitação, atender os critérios e esperar ser sorteado. Invasão nunca foi solução para qualquer situação”, finaliza.

Profissionalização da comunidade é prioridade 

A Secretaria de Assistência Social voltou seus olhares para a região da Comunidade Juquiá e idealizou alguns projetos que podem trazer benefícios aos moradores. A implantação de um Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) no Adhemar Garcia oferece serviços de proteção à família, fortalecimento de vínculos, atendimento social e cadastro único para eventuais benefícios que a família possa necessitar.

A instalação do Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC) José Loureiro em parceria com a Secretaria de Habitação e com a Univille, tem como foco o fortalecimento de vínculos comunitários, infraestrutura e principalmente formação profissional para a comunidade. Em todas as modalidades de atendimento, o CRAS atualmente recebe cerca de 200 famílias do Juquiá ao mês. Para a secretaria, a região é considerada de grande vulnerabilidade social, por isso, merece mais atenção.

A intenção do CRAS e da Secretaria é trabalhar preventivamente junto à comunidade, evitando danos sociais e profissionalizando a população para melhoria das condições.

 

Repórter: Drika Evarini
Editora: Ana Paula Bonin
Fotos: Felipe Bello
Linha do tempo: Milena Amaral, Heloisa Jahn
e João Deschamps
 
 

One Comment

  1. Janaina Santos says:

    Muito boa a matéria. Triste é a situação dessas famílias :(

Comentários

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